Some Things Last a Long Time

“Um traço da sociedade brasileira corresponde à persistência (declinante) de valores e padrões de comportamento de origem teológica, típicos do “conservadorismo” de costumes. Minguaram o repúdio do divórcio, a estigmatização da mulher separada, o tabu da sexualidade, a exigência da virgindade feminina pré-conjugal; persistem (parcialmente) a rejeição do aborto e da eutanásia, o machismo, o tabu da nudez.
Por tabu da nudez refiro-me ao pudor, como vergonha de ser visto nu e como estigmatização da genitália e das mamas (um pouco menos das nádegas), entendidas como partes do corpo inerentemente indecorosas. Por educação, imitação ou religião, muitos patrícios ainda se pejam de serem vistos desnudos, reputam imperioso resguardar a pureza infantil da vista de tais partes, desconfortam-se com a sua exposição.
Trata-se de mentalidade e de costumes abandonados na Europa, nos Estados Unidos da América, na Austrália (e não só), por expressiva parcela das suas populações, adesas (há décadas e gerações) à cultura do corpo livre (ou nudismo ou naturismo) ou, pelo menos, contrárias à distinção de partes do corpo em decentes e inapresentáveis e indiferentes à nudez natural. Esta corresponde à exposição do corpo com naturalidade e sem conotação erótica; ela indica o estado do corpo destituído do artifício do traje e, a pessoa, de vergonha e de apelo libidinoso. Nela, está-se nu como estar-se-ia se se estivesse enroupado.
Nos últimos anos, malgrado a presença crescente do reacionarismo religioso, vigora, no público lúcido e esclarecido, abertura de mentes e de costumes no tocante à inocência da sexualidade, da homossexualidade (também já se vai compreendendo a transsexualidade) e da nudez natural.
Esta por sua vez, manifesta-se pela presença, já correntia, de representações teatrais com atores e atrizes nus. Ainda perduram o estigma da genitália e das mamas e a associação entre nudez e sexualidade, estigma e associação em cuja erradicação alguns fotógrafos vêm colaborando, em anos recentes, com ensaios de nudez natural, de que me aprouve participar de um, fotografado que fui por Bruno Ribeiro.
Experiência inédita, por ela passei com a desinibição própria de quem dissocia nudez de sexualidade e de vergonha, e a associa com naturalidade e inocência: por cerca de uma hora e meia fui fotografado com o à vontade que teria se estivesse vestido. Nenhum embaraço me acometeu por achar-me desnudo: a mensagem do nudismo, como filosofia de vida, consiste na ausência de vergonha por ser visto nu, na ausência de estigmatização de genitália, mamas e nalgas, na ausência de malícia e de apelo sensual. O normal deveria e deve ser este tipo de reação, e não a de vergonha do que não é vergonhoso. A vergonha pudica não nos é espontânea: é-nos incutida, pode (e deve) ser abandonada.
A atitude de naturalidade de uma pessoa perante outra, nua, e desta, perante a primeira (vestida ou despida), com ausência de censura moral pela exposição, em si, do corpo, contém a ética do nudismo, laica e humanista.
Quem vê a nudez natural com malícia e o nu como objeto impudico, foi formado em mentalidade que recuso e em lugar da qual invoco a liberdade e a naturalidade dos antigos gregos e romanos. É mais inocente o nudista, despido, do que o moralista vestido.
O corpo, nu, é natural; artificiais são os trajes e o pudor. Construído pela cultura, este pode (e penso que deve) ser desconstruído pelo espírito crítico, pela lucidez no discernimento do que é realmente maléfico e do que não o é, pelo exemplo dos antigos gregos e romanos, e pelo dos europeus dos últimos cerca de cento e cinqüenta anos.
Repertórios fotográficos naturistas transmitem, por imagens, a ética do nudismo; acervos de fotografias de nus artísticos exprimem a nudez como objeto de beleza fotográfica; conquanto “Viva Calígula” não se volte especificamente a exemplificar a filosofia naturista, acaba por coadjuvá-la e por documentar a nudez artística, ao mesmo tempo em que se destina a demonstrar que os corpos são o que são, vale dizer, nem todos (ao contrário) correspondem aos padrões amiúde veiculados de (pretendida) beleza. Há que desfazer o tabu da nudez e contrariar o imaginário de beleza corporal divulgado como estalão do que é belo ou morfologicamente desejável.
Expor os corpos na inocência da sua naturalidade e na verdade da sua forma – nudez sem malícia, formas sem artifício – é educativo, no sentido de que educação inclui a formação de valores e a aquisição de lucidez. No caso, valor é o da inocência da nudez; lucidez é a de que os corpos exibidos pelos meios de comunicação representam mais o artificial do que o natural.”

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